Tecido (Des)conjuntivo

Aturdido. E novamente aturdido, como se mil agulhas de gelo, mergulhadas num Γ©ter desconhecido, perfurassem cada Γ­nfimo poro da percepΓ§Γ£o. Despertam em mim centenas de sensaΓ§Γ΅es que nΓ£o sΓ£o minhas, que parecem sentidas por outro, de outro mundo, e apenas retransmitidas a esta pobre carcaΓ§a por um telΓ©grafo cΓ³smico cuja chave enferrujou. O que sou eu, afinal, senΓ£o o instante em que me pergunto o que sou? Sou uma entidade maior que o universo, pois em mim ele se reflete e se questiona; e ainda assim, sou menor que a menor partΓ­cula, um grΓ£o de poeira insignificante na coreografia silenciosa da insignificΓ’ncia.

Eu sou este sΓ­nodo de cΓ©lulas mortas e tecidos (des)conjuntivos, uma assembleia fantasmagΓ³rica presidida pelo absurdo. Um conclave de matΓ©ria em decomposiΓ§Γ£o que delibera sobre o nada. Sou um tipo fundamental de Γ³dio, um Γ³dio primevo, nΓ£o o rancor mesquinho dos homens, e sim aversΓ£o primordial da existΓͺncia por si mesma. Este Γ³dio Γ© a minha verdadeira substΓ’ncia, caracterizado pela sua abundante matriz etΓ©rea, que inclui fibras de luz morta e a substΓ’ncia fundamental do silΓͺncio. Essa matriz, oh, essa teia pegajosa e divina, conecta e sustenta outros universos dentro de mim. Preenche os espaΓ§os entre um pensamento e outro com um zumbido baixo, a nota fundamental da matΓ©ria apodrecendo. Desempenha funΓ§Γ΅es que fariam um anjo chorar de pena: nutriΓ§Γ£o, defesa, armazenamento.

Quem trabalha nesta obra infame? Quem sΓ£o os operΓ‘rios? Fibroblastos, espectros tecelΓ΅es. MacrΓ³fagos, devoradores de sΓ³is falidos. LeucΓ³citos, uma guarda imperial em desespero. Todos eles, pequenos demΓ΄nios serviΓ§ais, sustentando, conectando, preenchendo, transportando, defendendo e reparando um vazio infindΓ‘vel. Um trabalho de SΓ­sifo numa escala celular, mantendo coesa a arquitetura do meu prΓ³prio inferno particular.

E a pele, a fronteira final. Uma derme que reflete um exantema estrelado, uma erupΓ§Γ£o celestial e doentia igual Γ quela que o Doutor Mikhail AfanΓ‘ssievitch deve ter visto em algum mujique febril sob a luz de um lampiΓ£o. Era para ser somente uma camada protetora, um simples tecido conjuntivo denso. Mas nΓ£o Γ©. Γ‰ um mapa de todas as chagas humanas, um atlas geogrΓ‘fico da dor, repleto de dΓ©dalos plasmΓ‘ticos onde se perde a razΓ£o. As pΓΊstulas florescem em constelaΓ§Γ΅es pΓΊrpuras, cada uma, uma histΓ³ria de fracasso, cada uma, uma estrela numa galΓ‘xia de sofrimento. Olho para o meu braΓ§o e vejo a Via LΓ‘ctea da minha prΓ³pria ruΓ­na.

Cartilagem e ossos nΓ£o mais sustentam este manequim inanimado. O que me mantΓ©m de pΓ© Γ© um pacto faustiano de reaΓ§Γ΅es quΓ­micas, uma pantomima grotesca que inunda a corrente sanguΓ­nea com um fogo lΓ­quido e escuro. Os leucΓ³citos, meus pobres e leais soldadinhos brancos, se debatem em fΓΊria, apresentam uma ΓΊltima e gloriosa resistΓͺncia. Mas esta infecΓ§Γ£o, ah, esta infecΓ§Γ£o nΓ£o Γ© deste mundo. Ela nΓ£o veio de um esporo ou de um vΓ­rus. Ela foi sussurrada. Γ‰ uma ideia que tomou forma, um conceito que aprendeu a devorar.

Os leucΓ³citos morrem aos milhΓ΅es, poderiam morrer como soldados, mas foram arremessados como hereges numa fogueira inquisitorial. A infecΓ§Γ£o Γ© invencΓ­vel porque ela sou eu. Γ‰ a conclusΓ£o lΓ³gica de ser este universo e esta partΓ­cula. Γ‰ a revelaΓ§Γ£o final, escrita neste cΓ©u doentio da minha pele: a de que o corpo Γ© apenas o palco provisΓ³rio onde a alma encena a sua prΓ³pria, e magnΓ­fica, capitulaΓ§Γ£o.