Algum dia desses

Dizem que um dia fomos inteiros. Que houve um tempo em que o amor não era falta, mas memória. Um tempo em que os corpos não estavam sozinhos dentro da própria pele, mas fundidos, deuses duplos que ousaram sentir-se plenos. Mas isso é mito. Fábula para quem não suporta o silêncio do mundo. Não há metades. Não há reencontro. Há apenas o ser cru, pegajoso, excessivo. A náusea.

E eu? Sou apenas uma pessoa sem importância coletiva. Mas sei que há outra coisa. Quase nada. Uma presença sutil que não posso mais explicar a ninguém. É isso.

Deslizo suavemente para o fundo da água, para o medo. Sofro com avareza. Talvez deva ser avaro também com meus prazeres. Pergunto-me se, às vezes, não desejamos nos libertar dessa dor monótona, desses resmungos que recomeçam tão logo se cala a música. Não seria melhor sofrer tudo de uma vez, até o fim, até o afogamento? Mergulhar de corpo inteiro no desespero e terminá-lo? Mas isso também é ilusão. De qualquer forma, não poderia fazê-lo. Estou atado. Amarrado não ao mundo, mas à sua falta de porquês.

E, no entanto, talvez seja isso o que me resta: essa música ao longe, essa música que ainda não escrevi, pra suportar o peso do mundo. Ela não diz: “Você será salvo”. Ela apenas soa. E nesse soar, reconheço meu cansaço, minha ternura secreta, meu espanto diante do tempo.

A música não mente. Ela é como o ser: gratuita, absurda, bela e, por isso mesmo, próxima. Ela não completa. Mas nos acompanha. E às vezes, apenas isso basta.