Sou o plural que afogou tentando nadar no singular,
um labirinto de carne contra o solo,
um feto ornamental na lata de lixo do mundo.
Vivo pela dádiva do não ser,
mas o dia mostra suas presas
e dilacera cada esperança acumulada como lixo até o teto.
Minha mente é um domicílio insalubre
onde nenhum pensamento respira sem apodrecer.
Tento auscultar o ventre da morte
mas ela me devolve um espelho
um raio-x clandestino,
onde vidas ofegam dentro de mim,
como raízes de um deus ruborizado
pela vergonha de nos ter imaginado.
Meus frutos são pútridos.
Colhi cada um no pomar de Dante,
diante do púlpito pedregoso,
entre serpentes que pregam com as mandíbulas.
A escritura se fecha dentro do outro
revelando anseios nodosos,
alimentando-se de terrores triviais,
medos com dentes,
palavras que morrem no instante em que são ditas.
Não quero te dizer nada.
Minha fragilidade se recusa às circunvoluções sangrentas.
O mundo está preso comigo,
respirando o mesmo lodo glandular,
observando cadáveres inchados sorrindo sob o sol que os consome.
Sou um erro da minha própria imaginação,
um acumulador de ruína,
um coração que ainda bate,
mas não ecoa mais em lugar algum.
É fácil me emaranhar nos fios da minha dor,
difícil é entrar no abismo do outro sem me perder inteiro.
Mesmo que decifre minhas palavras,
elas partem de uma realidade hierática,
perdida, oculta, irreparável.
Não significam.
Sangram.
E no fim, novamente me pergunto:
qual o propósito de continuar vivo,
sabendo que tudo o que amamos será apagado?
Talvez sejamos só isso:
um epitáfio em algum Araçá,
ou apenas cinzas,
deitadas com resignação
sobre a areia negra
do esquecimento.
